Na
história da música popular há pequeníssimos gestos capazes de gerar a mais
improvável das tormentas, afiados momentos dotados de uma força transformadora
passível de desmoronar as fortalezas mais inexpugnáveis. Em Agosto de 1975, um
jovem de 19 anos calcorreava King´s Road, no bairro londrino de Chelsea,
desafiando os deuses com um curto e belicoso “I Hate” estampado numa t-shirt do
grupo Pink Flody. A custo (quase) zero começava então uma revolta operária
contra as certezas graníticas do rock dos anos setenta e o aparato tecnológico
que o sustentava é posto em sentido pela simplicidade guitarra eléctrica/baixo/bateria.
Os Sex Pistols viveram pouco tempo (1975-1978) e publicaram apenas um LP em 77,
mas a golpes certeiros de navalhadas sónicas, devidamente temperadas por
quantidades apreciáveis de saliva, inventaram o aluvião que irrigará uma geração
temporariamente Punk, que logo depois intuiu o verdadeiro sentido do desafio
lançado por Johnny “Rotten” à cartilha de setenta. Os velhos heróis do rock
progressivo não desapareceram, mas a sua influência minimalizou-se – embora os
anos tenham devolvido, no corpo de alguns vencedores do presente, o seu
narcisismo cénico –, ao mesmo tempo que o epíteto de “dinossauros” os transforma
numa coisa que experimenta a contradição da convivência entre o batimento
cardíaco e o fim, irreversível, de uma época.
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